Chupeta: Bandida ou Mocinha?
A chupeta poderá ser usada, desde que racionalmente

A chupeta é uma peça que faz parte do enxoval de todo bebê. As modernas chupetas com diferentes formas, cores e desenhos têm despertado uma atração irresistível para o consumo das mamães. Criticada por uns e indicada por outros, seria a chupeta uma verdadeira vilã ou uma simples mocinha?

Seriam as chupetas benéficas, inócuas ou prejudiciais? Afinal, deve-se dar chupeta ao bebê?

A resposta para essa pergunta dependerá da freqüência, intensidade e duração de seu uso. Se for usada freqüentemente, por um período prolongado, determinará a instalação do hábito, algumas vezes prejudicando o aleitamento materno e provocando alteração no posicionamento dos dentes, na deglutição e na fonação, ou seja, poderá ocasionar desvios no crescimento e no desenvolvimento do sistema mastigatório, o chamado sistema estomatognático. Porém, se for utilizada racionalmente, de maneira inteligente, como um aparelho de fazer sucção, poderá estimular a atividade muscular e ter influência benéfica no desenvolvimento das arcadas dentárias, sem interferir na atividade de sucção nutritiva.

Os reflexos de alimentação: a sucção e a mastigação

A sucção é um reflexo de alimentação que nasce com a criança, é instintivo e faz parte dos reflexos do recém-nascido, parecendo que a natureza preparou tudo isso como um recurso de sobrevivência. O ato da sucção muitas vezes aparece ainda na vida intra-uterina e o seu exercício servirá de treinamento para o segundo reflexo da alimentação, a mastigação - que depende de aprendizado e de treino.

É um impulso que não visa somente à nutrição, mas também à satisfação psico-emocional, de forma que cada bebê apresenta a sua necessidade individual de sucção, que pode não ser satisfeita apenas com o aleitamento natural.

A sensação de fome e a necessidade de sucção vêm mais ou menos juntas e fazem parte do processo de desenvolvimento e da alimentação do bebê. A sucção e a fome deveriam ser atendidas ao mesmo tempo: a criança se sentiria satisfeita e, então, o normal seria adormecer. Dormir por um largo período depois da mamada é uma das conseqüências da satisfação da sucção, equilibrada com a sensação de plenitude gástrica. O ideal seria que fome e sucção fossem saciadas ao mesmo tempo.

No entanto, pode acontecer a satisfação pela metade. Ao mamar ao seio, - exercício que exige grande trabalho para sugar - às vezes, o bebê atinge a plenitude do esforço de sucção antes da plenitude gástrica: adormece, mas em pouco tempo acordará, pois está com fome. Mesmo ainda no seio, pode atingir a sensação de estômago cheio e ainda faltar sucção: nesse caso, também dormirá, mas acordará logo. No primeiro caso, é preciso amamentá-lo mais; no segundo, o uso bem dosado da chupeta ajuda a satisfazer a sucção que faltava.

Chupeta não substitui afeto

Quando isso ocorre, a chupeta poderá ser usada, desde que racionalmente. Não deve ser oferecida a qualquer sinal de desconforto, para acalmar o choro provocado por outros fatores, nem entendida como um artefato para apoio emocional ou uma forma de lazer para a criança, substituindo-a pela atenção dos pais. Jamais deverá ser abandonada com a criança e não se recomenda que o bebê durma todo o tempo com a chupeta, uma vez que é necessário manter a boca fechada, enquanto dorme, para criar uma memória muscular do contato entre os lábios e favorecer a correta respiração pelo nariz.

Oferecer chupeta a qualquer sinal de desconforto, para acalmar o choro, para distrair a criança é o caminho certo para que o hábito se instale fortemente, trazendo muitos problemas até ser abandonado. A chupeta só tem que entrar para resolver a necessidade de sucção: não deve ser usada como compensação. A mãe precisa distinguir se o bebê está assustado, se ouviu um barulho, se está se sentindo sozinho, ou com a fralda molhada, ou com cólica, pois a chupeta não é um consolo para solucionar outros problemas que não a sucção.

O uso racional da chupeta

Como reconhecer se há ainda necessidade de sucção? Basta tocar o contorno dos lábios do bebê com o bico da chupeta; se houver essa necessidade, ele iniciará os movimentos de sugar: é a prova de que a sucção não foi plenamente satisfeita. Assim, a chupeta será usada inteligentemente.

Resta claro, portanto, que a chupeta não pode ser uma oferta continuada e só deve ser usada em pequenos intervalos, como complemento da sucção. Por isso, só deve ser oferecida após a mamada, se a criança ainda precisar da satisfação causada pelo exercício da sucção. Vale, neste ponto, lembrar que o movimento de sucção deve ser substituído por outros movimentos – o de sorver e o de mastigar - no decorrer do desenvolvimento do bebê.


Referência: Dra. Maria Cristina Ferreira de Camargo – Odontopediatra, mestre e doutora em odontologia.