Cuspir - deselegância ou necessidade?

Uma notícia ou uma conversa, muitas vezes, nos leva a refletir sobre coisas até então pouco pensadas.

Dia desses li uma reportagem dando conta de que em um dos principais jornais chineses, o Beijing News, foi veiculada uma notícia, no mínimo, sui generis: as autoridades de Xangai proibiram os motoristas de táxi de abaixar o vidro de seu carro para cuspir, um costume muito difundido na China, mas que enoja os visitantes estrangeiros, causando um certo desconforto.

O governo local anunciou no início do ano que havia previsão de distribuir cerca de 45 mil “cuspideiras portáteis” para evitar que pessoas cuspissem nas ruas.

Esse fato provocou uma questão em minha mente: seria cuspir um ato indesejável? Natural? De bom-tom?

Quem não consegue engolir ou controlar a salivação baba ou cospe? Vaca, cachorro, passarinho sabem cuspir? Sentenciavam os mais antigos: “O boi baba porque não sabe cuspir.” O certo é que o ato de cuspir é privilégio dos humanos e trata-se de uma técnica que depende de aprendizado, ou seja, deve ser ensinada. Cuspir significa lançar pela boca ou expelir saliva, cuspo ou substância líquida. Baba é a saliva que escorre pela boca.

O ato de cuspir -a cuspidura ou cuspidela- é uma função adaptativa do sistema estomatognático (ou bucal) e, por via de regra, refere-se a um fenômeno voluntário que, para ser executado, depende dos constituintes do sistema, cada qual desempenhando determinado papel. O posicionamento da mandíbula, assim como os movimentos da língua, bochechas e lábios, que resultam na expulsão do conteúdo salivar, devem ser integrados em altos níveis ao sistema nervoso central, especialmente os impulsos provindos do córtex cerebral, que operam a sinapse em pares de nervos cranianos, tabuleiro em que o hipotálamo parece ser peça fundamental.

Se o ato de cuspir, de um lado, pode ser causado reflexamente por estímulos gustativos ou irritativos da boca, por excesso de volume de líquido no seu espaço funcional, por outro, pode representar expressão de hostilidade ou de agressividade, manifestando, com deselegância, o desagrado de alguém diante de algo.

Há ainda as situações que, de repetitivas, acabam por se transformar em hábito: por exemplo, jogadores de beisebol e de futebol costumam cuspir para o lado, antes de uma jogada. Quando se assiste aos jogos de futebol, freqüentemente, vê-se na tela, em grande plano, uma encorpada cuspidela saída a muitos quilômetros por hora da boca do jogador.


Nomenclatura do campo temático: escarro, pigarro, cuspideira

Cuspir matéria ou secreção originada no fundo da garganta ou após expectoração tem um nome um tanto incômodo: escarrar. No entanto, esse enfoque de deselegância acontece há pouco tempo em termos de história: no passado, houve uma época, em que era normal as salas de visita das casas e lugares públicos exibirem um recipiente especial, a escarradeira, também conhecida por cuspidor, para que as pessoas deixassem ali seus depósitos bucais, geralmente os provenientes de tosse ou embaraço na garganta provocado por muco, o chamado pigarro. (Eca!) Esses recipientes eram usados também por causa do hábito de se mascar tabaco à época, coisa essa que fazia as pessoas cuspirem as massas de fumo. Os adeptos do vício mascavam e cuspiam sem parar.

Atualmente, o hábito se afasta da boa educação: o fato de se cuspir no chão, na rua, é um ato deselegante e insalubre, visto que a secreção, sendo rica em microorganismos, torna o local um foco de contaminação, que pode aderir à sola do calçado dos transeuntes e atingir o organismo até por evaporação da secreção.


As diversas funções da boca

Não se nasce sabendo cuspir. É preciso que alguém ensine e que alguém aprenda. Por incrível que possa parecer, faz parte da educação. Educação no sentido genérico, referindo-se ao ato de aprender e ensinar, não envolvendo modos elegantes ou não. E, nesse sentido, há que se ensinar um ser em formação a cuspir, até porque ele deve aprender a se livrar de algo incômodo, inadequado ou perigoso na boca.

Caminhando nessa mesma direção, podemos observar a fase em que a criança ainda é um bebê. Muito se fala que o bebê baba porque os dentes estão nascendo. Não é bem assim. Na verdade, o que ocorre é que, na época em que nascem os primeiros dentinhos, duas situações podem provocar tal procedimento: alguns deles colocam a mãozinha na boca e outros mantêm a boca entreaberta, sem contato labial, sem selamento dos lábios. Ora, tanto uns como outros não conseguem controlar o fluxo de saliva e, com a boca aberta, não deglutem e acabam babando.

Se o nascimento de dentes levasse as pessoas a babarem, esse procedimento ocorreria também aos 2 anos, época em que nascem os últimos dentes de leite e, ainda, aos seis, quando surgem os molares permanentes, na troca dos primeiros dentes. Assim por diante, até o nascimento dos últimos molares permanentes, já na adolescência.

A boca, essa incrível máquina de mastigar, que exerce tantas funções, é mesmo capaz de realizar muitos movimentos: deglute, assopra, aspira, assobia, espirra, beija, boceja, bochecha, chora, morde, sorri, baba e cospe.

Quanta coisa uma notícia ou um assunto nos leva a pensar!


Referências
Profª. Drª. Maria Cristina Ferreira de Camargo – Odontopediatria
Dr. João Luiz Ferreira de Camargo França - Ortodontia