Orientações ::
A mastigação e a goma de mascar
As gomas de mascar funcionam como verdadeiros aparelhos que podem provocar ou agravar a maloclusão.
Por Profª Drª Maria Cristina Ferreira de Camargo – Odontopediatra / imagem AaronAmat

 

A mastigação é um reflexo alimentar que não nasce com a criança: depende de aprendizado, ou seja, é um reflexo adquirido. Ainda mais: a criança não aprende a mastigar de uma hora para outra.

Os primeiros movimentos mastigatórios já podem ser percebidos, por volta dos cinco ou seis meses, antes mesmo da erupção dos primeiros dentinhos; é o bebê “engatinhando” na atividade da mastigação. A partir daí, estimulado por uma dieta gradativamente mais consistente, variando a textura dos alimentos e com treino constante, o padrão mastigatório vai amadurecendo aos poucos e, na verdade, vai se maturando ao longo dos primeiros anos. Os pais precisam estar atentos para que cada fase seja exercitada plenamente e o aprendizado da mastigação se processe com equilíbrio e de maneira adequada, afastando fatores que possam desviar o seu desenvolvimento.

O que ajuda a desenvolver e maturar este processo? A oferta de alimentos duros, secos e fibrosos é muito importante. Os alimentos de maior consistência, como a torrada, o pepino, a cenoura crua, exercitam os músculos da face, especialmente os da região da maxila e mandíbula, realizando contrações isométricas que resultam numa melhor tonicidade muscular, sendo assim excelente fator de saúde e de crescimento para a boca.

Goma de mascar

Um fator que pode causar alteração e deturpar a aquisição de um bom padrão mastigatório, podendo ser considerado um grande inimigo da boca, que está crescendo, é o uso constante da goma de mascar.

Alguns motivos se enfileiram para que esse tipo de guloseima seja evitado: se contiver açúcar, poderá desencadear a doença cárie, sem contar que seu uso freqüente resulta no exercício de movimentos mandibulares indesejáveis e desequilibrados, induzindo a mastigação unilateral, além de estimular a secreção gástrica. Vale lembrar que ainda produz um movimento mastigatório, dito vazio, uma vez que não completa a contração muscular conseguida como quando da mastigação de um bife, por exemplo.

Mascar e mastigar

Mastigar é diferente de mascar. Mascar significa mastigar sem engolir. A textura da goma de mascar é própria para não induzir a deglutição. O que induz a deglutição é a maceração total do alimento obtida pelos golpes mastigatórios produzidos por contrações isométricas dos músculos mastigatórios.

A mudança no padrão mastigatório tira o equilíbrio do movimento das arcadas, podendo atrapalhar o desenvolvimento da oclusão, causar ou acentuar o mau posicionamento dos dentes.

A articulação entre a arcada inferior e a superior é a única do corpo humano que funciona ao mesmo tempo. A mastigação envolve movimentos em que a mandíbula excursiona para um lado, depois para o outro, em uma atividade de trabalho e balanceio. A goma de mascar estimula o exagero desses movimentos em lateralidade.

A mastigação equilibrada é realizada bilateralmente, sendo considerado normal quando simultânea, dos dois lados, ou alternada, num e noutro lado. Ao mascar a goma, a criança geralmente mastiga de um lado só. Resultado: força-se mais um lado, o que tem o poder de viciar a mastigação unilateral. Além disso, faz um movimento vazio, sem contato dentário.

As gomas de mascar funcionam como verdadeiros aparelhos que podem provocar ou agravar a maloclusão. A criança que masca muito distorce seu padrão mastigatório, joga exageradamente a mandíbula, para os lados ao comer. Isso porque a musculatura não participa na sua totalidade, em sua plenitude, alterando o padrão funcional.

Quando se coloca algum alimento na boca e se começa a mastigar, é dado o sinal para que o processo digestivo se desencadeie. O que acontece quando se masca goma? Ao ser dado o sinal, o processo digestivo se inicia com a liberação das enzimas que atuam na digestão. Ora, o estômago ‘pensa’ que entrou na boca uma fruta, um sanduíche, enfim, comida: produz o suco gástrico (que é ácido) para receber o alimento que irá chegar; só que não vem nada. O estômago começa a funcionar como se para ele viesse o bolo alimentar. E isso pode desencadear um desconforto gástrico e complicações digestivas.

O organismo é programado para trabalhar um determinado tempo em cada função, para dormir, mastigar, digerir. O uso da goma de mascar exacerba o número de movimentos, por si só insatisfatórios, aumenta o tempo de trabalho muscular, estressando o sistema, prejudicando a mastigação e, ainda, provocando o início de digestões falsas. Por tudo isso, é bom conservar distância dessa guloseima.

Acrescente-se a isso o fato de que a goma de mascar açucarada é até mais cariogênica que uma bala dura, pois, ao ser mastigada, ela imprime o açúcar nas fissuras do dente, isto é, em lugares muito mais difíceis de serem alcançados pela escova.

Não é necessário proibir a goma. Dado o hábito generalizado nessa faixa etária, a proibição talvez fizesse a criança se sentir muito diferente das outras. A goma de mascar pode ser apresentada à criança, pode ser permitida uma vez ou outra; o que se recomenda aos pais é disciplinar e desestimular o seu uso para que não se instale um hábito freqüente, que, além de distorcer o padrão mastigatório harmonioso, é deselegante e socialmente indesejado.