Selante: o dente blindado
contra o perigo da doença cárie

Os dentes posteriores, aqueles situados no fundo da boca, lá atrás, são, pela ordem, de trás para a frente: os molares, presentes na dentição de leite e na permanente, e os pré-molares, que existem apenas na dentição permanente.

Esses dentes têm um formato mais achatado e, na superfície oclusal, isto é, na região onde mastigamos, mordemos e trituramos os alimentos, existem pontas, chamadas cúspides, cercadas de muitas ranhuras, reentrâncias e depressões, denominadas fissuras ou fóssulas.

Nos molares decíduos, ou de leite, as fissuras são mais largas que as encontradas nos molares permanentes, estas estreitas e mais profundas.

Com muita facilidade, a placa bacteriana e os restos alimentares se depositam nesta região acidentada e irregular, acumulam-se e ficam ali retidos.

Ao escovar os dentes, as cerdas da escova, que são maiores que esses sulcos, não conseguem penetrá-los, não alcançam o seu fundo e, como conseqüência, não removem os resíduos dessa área.

O primeiro molar permanente, conhecido como “molar dos seis anos”, deve ser bem observado neste aspecto, uma vez que possui fóssulas e fissuras muito pronunciadas, estreitas e profundas. Esses dentes nascem atrás do último molar de leite, lá no fundo da cavidade bucal, numa época em que a boca da criança ainda é pequena e numa fase em que a criança ainda não adquiriu um controle efetivo da escovação.

Assim, são dentes que ficam prejudicados na higienização, passando a ser mais susceptíveis à lesão da doença cárie, que se inicia exatamente nesta região irregular das fissuras. Tanto é verdade, que o primeiro molar permanente é um dente que, na maioria das pessoas, apresenta-se restaurado, com canal tratado, muitas vezes até extraído.


Da "odontotomia profilática" até o selante

Antigamente, no início do século passado, era comum adotar-se um procedimento denominado “odontotomia profilática”, um nome esquisito, que queria dizer algo oposto às conveniências, ou seja, a proposta de se remover todas as fissuras e fóssulas, com auxílio de uma broca, de maior tamanho, fazendo-se uma cavidade no dente e colocando-se ali um material obturador, que, na época, era uma liga metálica, o famoso amálgama de prata.

A ciência odontológica, com o passar dos anos, buscou uma substância capaz de permear por entre as fissuras, sem danificar o tecido dental, calafetando e vedando as fendas, obliterando-as, de maneira a formar uma película protetora, protegendo o dente dos restos alimentares e da placa bacteriana e, finalmente, impedindo a instalação de lesões da doença cárie.

Foi, então, que se chegou ao atual “selante”. Material plástico transparente, branco ou matizado, usado para "pincelar" as superfícies rugosas dos dentes posteriores (pré-molares e molares), e trabalhar a favor de sua proteção, resguardando-o como uma barreira ou uma película protetora, enquanto reveste e cobre a superfície mastigatória dos dentes, para facilitar a sua limpeza e reduzir o risco da doença cárie.


Quem pode e deve se valer dessa útil ferramenta?

As crianças são muito beneficiadas pelo uso dos selantes, que são aplicados naqueles dentes que recém erupcionaram. São recomendados para todas as crianças, mesmo aquelas que recebem aplicações tópicas de flúor ou que vivem em cidade com água fluoretada, porque a ação do flúor é mais efetiva nas superfícies lisas do dente e o selante age na região das fissuras.

A aplicação do selante é um procedimento simples: um material que escoa e penetra nas fissuras e ranhuras do esmalte dentário. No entanto, deve ser aplicado após uma cuidadosa limpeza e requer adequado controle do campo, para que os dentes estejam bem secos, antes da aplicação.

Além das crianças, seu uso é recomendado a adolescentes e adultos sem disciplina alimentar, que consomem substâncias açucaradas e guloseimas, que utilizam medicamentos, que diminuem o fluxo salivar ou que apresentam mancha pré-cariosa nos sulcos e fissuras, pois são pessoas que tendem a alto risco de cárie e que também podem ser beneficiadas pela aplicação de selantes.

Dentes com sulcos e ranhuras rasas, que permitam a limpeza com a escova, a princípio, não necessitam de selantes, ficando a critério do profissional dentista a sua indicação.

Por fim, há de se observar um detalhe da maior importância: mesmo que o dente tenha recebido a proteção do selante, não estará livre do perigo da cárie para sempre. Isso porque, durante a mastigação, pode ocorrer um desgaste natural dessa película protetora e, mesmo por isso, para manter o efeito protetor, há necessidade de verificação periódica pelo dentista, que determinará se é necessária a sua reaplicação.
Não deixe de perguntar ao seu dentista se você e seu filho podem se beneficiar com a aplicação de selantes em seus dentes posteriores.


Referências
Profª. Dra. Maria Cristina Ferreira de Camargo - odontopediatra;
Dr. Roberto Mariani - cirurgião buco-maxilo-facial.